HISTÓRIAS SUBMERSAS EM MUTUM PARANÁ: MIGRAÇÃO FORÇADA E OS
IMPACTOS SOCIAIS PROVOCADOS PELA USINA HIDRELÉTRICA DE JIRAU
impactos históricos e culturais; migração forçada; identidade
cultural; Usina Hidrelétrica de Jirau; Mutum Paraná.
Este trabalho analisa os impactos históricos, sociais e culturais provocados pela
migração forçada decorrente da implantação da Usina Hidrelétrica de Jirau, no
município de Porto Velho (RO), focalizando especialmente a comunidade
remanejada de Mutum Paraná. O objetivo geral consiste em compreender de que
maneira o deslocamento compulsório interferiu na manutenção da identidade
cultural, no sentimento de pertencimento e nas práticas sociais dos moradores. A
presente pesquisa parte do seguinte problema central: quais foram os impactos
históricos e culturais provocados pela migração forçada associada à construção
da UHE Jirau, e como esse deslocamento afetou a identidade cultural dos
moradores da antiga comunidade de Mutum Paraná? A justificativa fundamentase
na escassez de estudos que abordem os impactos histórico-culturais causados
por grandes obras na Amazônia, visto que a maior parte das pesquisas privilegia
dimensões ambientais ou econômicas, deixando em segundo plano as
experiências, memórias e narrativas das populações atingidas.
Metodologicamente, trata-se de uma investigação de abordagem qualiquantitativa,
composta por pesquisa de campo, aplicação de questionários
estruturados, observação direta e análise documental. As informações coletadas
em Nova Mutum Paraná foram cruzadas com dados institucionais da Jirau
Energia S.A., relatórios socioambientais, documentos da Prefeitura de Porto
Velho, legislações específicas e dados demográficos do IBGE. O estudo também
incorpora contribuições da história oral, fundamentada em Paul Thompson (1992),
visando reconhecer os moradores como sujeitos históricos e portadores de
memória. O referencial teórico apoia-se em autores que discutem território,
memória, identidade cultural, reassentamentos e impactos sociais de grandes
empreendimentos. Milton Santos (2001) compreende o território como um sistema
indissociável de objetos e ações, o que permite analisar como a perda territorial
afeta diretamente a organização da vida cotidiana. Pierre Nora (1989) e Paul
Ricoeur (2007) contribuem para a compreensão da memória coletiva e dos
―lugares de memória‖, fundamentais para analisar o apagamento simbólico
causado pelo reassentamento. Stuart Hall (2006) e Homi Bhabha (1998)
fundamentam a discussão sobre identidade cultural como processo histórico e
relacional, marcado por deslocamentos e reconstruções identitárias. No campo
dos estudos críticos sobre reassentamentos e grandes projetos, destacam-se as
análises de Andréa Zhouri e Guido Laschefski (2010), que questionam a
racionalidade tecnocrática dos empreendimentos hidrelétricos, e Carlos Walter
Porto-Gonçalves (2006), que argumenta que grandes obras atuam como
mecanismos de reorganização territorial e expropriação de populações
tradicionais. Galizoni (2021) discute o desenraizamento cultural e a perda das
bases materiais que sustentam os modos de vida tradicionais, enquanto Canclini
(2008) contribui para compreender as reconfigurações culturais que emergem nos
processos de deslocamento e hibridização. Os resultados indicam que a migração
forçada provocada pela UHE Jirau produziu rupturas profundas nas práticas
sociais, nos vínculos comunitários e na memória coletiva dos moradores. A
substituição do território ancestral pela cidade planejada de Nova Mutum Paraná
não recompôs os laços afetivos, nem a autonomia produtiva existente no antigo
distrito. As mudanças abruptas no modo de vida — como o fim da pesca
artesanal, da agricultura de subsistência e das formas tradicionais de
sociabilidade — desencadearam sentimentos de perda, injustiça,
desenraizamento e fragilidade identitária. Conforme aponta Galizoni (2021), a
perda do território é também uma perda existencial, pois compromete redes de
significados construídas ao longo de gerações. Conclui-se que o deslocamento
compulsório configurou mais do que uma mudança espacial: tratou-se de uma
ruptura histórica e cultural, cujos efeitos continuam a moldar a vida dos
reassentados. Os impactos ultrapassam as dimensões materiais, atingindo a
subjetividade, a memória e as formas de reprodução da vida social. Assim, este
estudo reforça a necessidade de políticas públicas baseadas na reparação
integral, no respeito à memória coletiva e na valorização dos saberes e práticas
culturais dos sujeitos atingidos.