ENTRE O PASSADO ACUCAREIRO E O PRESENTE ACAIZEIRO: Transformacoes Socioeconomicas em Igarape-Miri-PA.
Agricultura. Cana-de-açúcar. Açaí. Trabalho. Desenvolvimento Regional.
Esta dissertação analisa o desenvolvimento histórico e socioeconômico do município de Igarapé-Miri, no estado do Pará, a partir de dois ciclos produtivos fundamentais: a agricultura da cana-de-açúcar, predominante no século XIX, e o agroextrativismo do açaí, consolidado como principal atividade econômica local a partir do final da década de 1990. O estudo constitui a continuidade de uma pesquisa desenvolvida na comunidade e concluída em 2022, sendo retomado com novos objetivos que visam à expansão, ao aprofundamento analítico e à atualização dos dados, de modo a conferir maior densidade interpretativa ao trabalho anteriormente realizado. Nesta nova etapa, foram realizadas entrevistas com 15 moradores mais experientes da comunidade, priorizando sujeitos que, por sua trajetória de vida e inserção no trabalho local, puderam oferecer subsídios históricos, sociais e econômicos mais consistentes, complementando as informações obtidas na fase anterior, na qual predominou o contato com o público mais jovem. A investigação contempla os contextos históricos de cada ciclo produtivo, as formas de organização do trabalho, as relações sociais estabelecidas nos processos de produção e os impactos dessas atividades na estrutura econômica e social do município. A metodologia adotada é de natureza qualitativa, fundamentada em pesquisa documental, história serial, estudo de caso e história oral, por meio da realização de entrevistas semiestruturadas com trabalhadores e moradores da região, articulando diferentes fontes e perspectivas analíticas. Os resultados evidenciam que, embora o ciclo da cana-de-açúcar tenha exercido papel central na formação econômica de Igarapé-Miri, esteve associado a relações de trabalho marcadas pela exploração, pela precarização e por condições próximas à escravidão, contribuindo para a reprodução de desigualdades sociais historicamente consolidadas. Em contrapartida, a expansão e consolidação do agroextrativismo do açaí promoveram maior autonomia produtiva aos trabalhadores, ampliando suas possibilidades de organização do trabalho, geração de renda e inserção nos mercados regionais, ainda que esse novo ciclo apresente desafios estruturais, como a instabilidade dos preços, a sazonalidade da produção, a dependência de atravessadores e as limitações na organização comunitária. Conclui-se que a transição entre esses dois ciclos produtivos redefiniu profundamente a dinâmica econômica, social e territorial de Igarapé-Miri, revelando avanços significativos nas condições de trabalho e renda, mas também a permanência de entraves históricos que continuam a desafiar o processo de desenvolvimento regional, evidenciando a complexidade das transformações socioeconômicas na Amazônia paraense.