CORPOS PUNIDOS: Violência de Gênero e Desigualdade Narrativa em Vincenzo
Vilãs; Violência de gênero; K-Drama; Coreia do Sul; Poder e Feminismo.
Esta dissertação busca compreender como a violência de gênero é construída, representada e distribuída de maneira desigual entre antagonistas masculinos e femininos no K-Drama Vincenzo, considerando as relações entre narrativa audiovisual, normas sociais e regimes de poder. A partir de uma abordagem qualitativa, que articula Análise de Conteúdo e Análise Fílmica, o estudo examina como elementos narrativos e formais, como enquadramento, montagem e trilha sonora, participam da produção de sentidos sobre moralidade, transgressão e punição. Parte-se da hipótese de que a vilania feminina é construída como um desvio mais intolerável em relação às normas de gênero, sendo submetida a formas mais intensas, moralizadas e espetacularizadas de punição, enquanto a vilania masculina tende a ser parcialmente legitimada ou estrategicamente enquadrada. Nesse sentido, analiso as trajetórias dos antagonistas Jang Jun Woo e Choi Myung Hee, observando como suas performances de poder, suas ações e, sobretudo, seus desfechos revelam assimetrias na forma como a violência é narrativamente autorizada e aplicada. A pesquisa ancora-se em um campo teórico interdisciplinar que articula estudos de gênero, teoria feminista e análise do audiovisual, mobilizando conceitos como performatividade de gênero, regimes de visibilidade, tecnologias de poder, o male gaze e o female gaze, a fim de compreender como o corpo feminino é historicamente construído como objeto de controle, desejo e punição. Ao mesmo tempo, insere os K-Dramas no contexto mais amplo da indústria cultural sul-coreana e da Hallyu, entendendo essas produções como dispositivos de circulação de valores sociais e morais em escala transnacional. A análise evidencia que a vilania feminina opera como um dispositivo simbólico que delimita os limites socialmente aceitáveis da ação e da autonomia das mulheres, funcionando como uma pedagogia narrativa que regula o feminino por meio da violência. Mais do que examinar personagens, a dissertação demonstra como o audiovisual participa da produção e legitimação de desigualdades de gênero, revelando que a punição, longe de ser neutra, constitui um mecanismo central na manutenção de hierarquias simbólicas e sociais.