MARGINALIZAÇÃO DIGITAL SILENCIOSA: desigualdade digital no exercício da cidadania na terceira idade em Porto Velho
desigualdade digital; cidadania digital; terceira idade; etarismo; Amazônia; Porto Velho
Esta dissertação investiga de que maneira a desigualdade digital, articulada ao etarismo e ao contexto amazônico, compromete o exercício da cidadania pela população idosa em Porto Velho, Rondônia. A pesquisa adota abordagem qualitativa e quantitativa combinada, tendo como corpus empírico os participantes da primeira edição do programa de literacia digital Conecta Vovô, desenvolvido pela Associação de Assistência à Cultura na Amazônia - Moacyr Grechi (AASCAM) em 2025-2026. Os dados foram coletados por meio de enquete aplicada junto a 11 respondentes e de entrevistas semiestruturadas realizadas com 4 participantes, tratados segundo o método de análise de conteúdo de Bardin (2015). O referencial teórico mobiliza os conceitos de desigualdade digital de Van Dijk (2005) e Deursen (2017), a teoria das mediações de Martín-Barbero (1997), o apartheid tecnológico de Canclini (2009) e as noções de cidadania tutelada e descidadanização propostas por Carvalho (1996) e Canclini (2021). Os resultados evidenciam que a exclusão digital da terceira idade em Porto Velho opera por três mecanismos sobrepostos: infraestrutural, dado que apenas 11% da população amazônica alcança níveis qualificados de conectividade; institucional, em razão da digitalização compulsória dos serviços públicos, representada pelo portal Gov.br, sem correspondente política de letramento; e simbólico, pelo etarismo internalizado que retira do idoso o desejo de ocupar espaços digitais de direito. A totalidade dos respondentes declarou já ter precisado de auxílio de terceiros para acessar serviços públicos ou bancários pela internet, configurando uma cidadania tutelada que substitui a autonomia por dependência. A análise demonstra ainda que o grupo estudado é triplamente marginalizado, pelo etarismo estrutural, pela marginalização territorial de Rondônia dentro da região Norte, e pelo aspecto socioeconômico, desigualdades que se somam e se intensificam mutuamente. O fato de todos os entrevistados terem reconhecido no programa seu primeiro contato com qualquer ação sistemática de formação tecnológica expõe, com nitidez, a ausência histórica do Estado nessa dimensão da política pública. Conclui-se que a superação da exclusão digital da terceira idade amazônica exige ações articuladas nas dimensões de infraestrutura, literacia digital e política pública permanente, tratando o letramento digital como direito e não como assistência.