ANÁLISE FILODINÂMICA DO VÍRUS DA HEPATITE DELTA: ESTUDO DA ORIGEM GEOGRÁFICA E DINÂMICA EVOLUCIONÁRIA ATRAVÉS DO TEMPO
HDV. Evolução viral. Filodinâmica. Filogeografia. Amazônia Ocidental
O vírus da hepatite Delta (HDV) causa a forma mais grave de infecção hepática dentre todas as hepatites virais, além de ser considerado um agente distribuído globalmente. Possui um nível de variabilidade genética que permite a organização dele em 8 genótipos e com diferentes distribuições geográficas entre eles. Seu relato mais antigo ocorreu na década de 1930, na América do Sul. Nesse continente, o genótipo 3 (HDV3) parece ser exclusivo e o mais frequentemente isolado. É associado à forma mais severa de hepatite Delta, em contraste quando a infecção se manifesta em populações indígenas, onde pode apresentar-se de forma assintomática e com mais sensibilidade ao tratamento. A relação filogenética do HDV-3 com os demais genótipos é a mais distante, possuindo ligação evolutiva direta com o último ancestral comum a todos os genótipos do HDV. Tais informações sustentam uma hipótese de que a origem geográfica do HDV seja na América do Sul, podendo estar associada a populações indígenas. Com base nessas informações, o estudo teve como principal objetivo descrever a dinâmica evolucionária do HDV e sua história evolutiva no continente sul-americano, analisando porções genômicas de cepas virais isoladas a partir de pacientes de populações indígenas e não indígenas, juntamente com sequências já depositadas em banco de genômica contendo representatividade de todos seus oito genótipos. As análises demonstraram que o ancestral comum mais recente de HDV-3 foi datado em 1940 e indicaram que a dispersão pode ter começado no Brasil, se espalhando para a Venezuela, Peru e Colômbia posteriormente. Observou-se um crescimento exponencial do número efetivo de infecções entre as décadas de 1940 e 1980, anos após o primeiro relato da presença de HDV no continente durante o surto da Febre Negra de Lábrea, sugerindo que o vírus continuou a se espalhar e aumentar o número de casos décadas após os primeiros relatos. Já no novo milênio, a análise mostrou uma diminuição na dinâmica populacional de HDV3, provavelmente decorrente da implantação da vacina contra seu vírus auxiliar, o vírus da hepatite B, e métodos de rastreamento sorológico implementados nos bancos de sangue. As análises da filogenia temporal e datação do último ancestral comum a todos os genótipos de HDV permitiram observar que este circulou entre as metades dos séculos XIX e XX, mais proximamente de 1911. Quando se considera as conclusões obtidas com o genótipo 3 e sua posição na distribuição posterior e cladística na filogenia reconstruída de HDV (único ramo ligado diretamente a raiz da árvore), pode-se supor que este ancestral estava circulando na América do Sul. Neste período ocorreu o início de um intenso povoamento da região Amazônica, marcado por contatos iniciais entre populações distintas de diferentes localidades o país e do mundo que até então não tinham tido um contato anterior, incluindo o aqui o contato inicial com populações indígenas nativas. Tais encontrados e associações geraram uma possibilidade de que a Amazônia de meados dos séculos XIX e XX albergou o primeiro foco de disseminação de HDV com consequente posterior disseminação por todo o globo.