Diversidade Genética e Taxonomia Integrada de Flebotomíneos Amazônicos
Amazônia. DNA Barcoding. Leishmania. Rondônia. Vetores.
Os flebotomíneos (Diptera, Psychodidae) são insetos de grande importância na saúde pública atuando como vetores de diversos parasitos, incluindo espécies de Leishmania, flagelados que causam as leishmanioses. No estado de Rondônia estudos sobre os flebotomíneos têm sido realizados desde a década 1960 e o conhecimento da fauna local é de grande importância para a identificação de vetores e compreensão da dinâmica de transmissão da doença. Atualmente, a identificação dos flebotomíneos é baseada na morfologia do adulto, que pode ser problemática quando as espécies são morfologicamente semelhantes. A grande diversidade desses insetos e ocorrência de espécies crípticas em Rondônia dificulta a identificação com base apenas em caracteres morfológicos, dessa forma ferramentas que auxiliem na taxonomia clássica podem melhorar a acurácia na identificação correta, incluindo espécies que possam atuar como vetores de patógenos na região. Isto posto, este estudo teve como objetivo implementar o uso de DNA barcoding em flebotomíneos amazônicos a fim de otimizar a identificação de espécies e investigar a existência de espécies crípticas, associando essa abordagem à taxonomia clássica na descrição da fauna de flebotomíneos do Estado de Rondônia. Para esse estudo, além do material de coleta de flebotomíneos de outros estudos realizados no estado pelo Laboratório de Entomologia da Fiocruz, foram avaliadas as espécies coletadas em 2019 em 4 cidades de Rondônia com armadilhas luminosas CDC. Ao todo, 652 espécimes pertencentes a 69 morfoespécies foram identificadas morfologicamente, as pernas ou tórax foram retirados e tiveram seu DNA genômico extraído e o fragmento do citocromo c oxidase subunidade I (coI) foi amplificado e sequenciado. As sequências foram analisadas pelos critérios de similaridade “best-match” e “best close match” e seis diferentes métodos de delimitação de espécies “single-locus” (ABGD, RESL, TCS, GMYC, PTP e mPTP) foram utilizados para inferir unidades taxonômicas operacionais (OTUs). Foi avaliado também o conjunto de “barcodes” produzidos neste trabalho juntamente com “barcodes” de coI previamente publicados, esse banco de dados gerado foi analisado nos métodos de delimitação de espécie ABGD e TCS. O uso do gene coI se mostrou útil para a identificação de aproximadamente 80% das espécies, não sendo preciso na separação das algumas espécies do gênero Evandromyia, Nyssomyia, Trichophoromyia e Trichopygomyia. As análises do fragmento do gene coI sugerem a presença de diversidade críptica, em pelo menos quatro algoritmos analisados, nas espécies: Bichromomyia flaviscutellata, Evandromyia bacula, Evandromyia tarapacaensis, Evandromyia wilsoni, Nyssomyia fraihai, Psychodopygus carrerai, Psychodopygus davisi e Trichophoromyia ubiquitalis. Ainda foi possível estabelecer a associação entre machos e suas respectivas fêmeas, cuja semelhança morfológica dificultava a identificação, também possibilitou a descrição das fêmeas de Pintomyia fiocruzi e Psathyromyia pradobarrientosi. As análises das sequências de espécimes de outras localidades, além de Rondônia, mostraram a importância de um banco de dados robusto para um melhor entendimento na delimitação das espécies de flebotomíneos, pois ao ser adicionado barcodes de espécies próximas ou de diferentes regiões geográficas mostra uma mudança na delimitação de algumas espécies mostrando uma diversidade críptica bem maior ou agrupando espécies próximas. O presente estudo reforça a necessidade da identificação molecular para complementar a identificação morfológica e mostra a importância da utilização dessa abordagem para revelar a diversidade críptica de algumas espécies de flebotomíneos.