AVALIAÇÃO DO TRANSCRIPTOMA EM CEPAS DE Leishmania (Viannia) braziliensis NA PRESENÇA E AUSÊNCIA DE Leishmania RNA virus 1 E AOS DIFERENTES PERFIS DE SUSCEPTIBILIDADE DO PARASITO in vitro AO ANTIMONIAL TRIVALENTE
Expressão gênica; carga viral; filogenia
A leishmaniose tegumentar (LT) é uma doença causada por parasitos do gênero Leishmania e
amplamente registrada em regiões tropicais e subtropicais do mundo. No Brasil, a incidência é
alta na região Norte e o estado de Rondônia registra aproximadamente 1.000 novos casos
anualmente. A espécie Leishmania (Viannia) braziliensis é a principal associada aos casos de
infecção no estado e é conhecida por albergar o endossimbionte viral Leishmania RNA virus 1
(LRV1). A presença do LRV 1 tem sido relacionada ao desenvolvimento de lesão mucosa na LT
e aos casos de falhas no tratamento de pacientes com antimoniais pentavalentes, cuja forma
ativa é o antimonial trivalente (SbIII). Resultados preliminares demonstram diferentes perfis de
susceptibilidade de cepas de L. braziliensis ao SbIII, contudo sem relação com a presença e
carga viral de LRV1. Uma das estratégias para compreender essas condições na biologia do
parasito foi a análise de padrões moleculares, como a avaliação do transcriptoma de diferentes
cepas de L. braziliensis da Amazônia brasileira frente à ausência e presença de LRV1 e aos
perfis de susceptibilidade apresentados pelo parasito em exposição in vitro ao SbIII. Para isso,
foram selecionadas 20 cepas de L. braziliensis, das quais 10 são positivas para o LRV1. Nessas
cepas, foi realizada a recuperação de passagem após infecção em células de linhagem derivadas
de monócitos humanos (THP-1), a fim de minimizar as variabilidades na expressão genética. A
partir disso, curvas de crescimento foram feitas para todas as cepas com o intuito de determinar
a fase logarítmica e sincronizar a fase de crescimento dos parasitos para os experimentos. Essas
cepas mostraram fases logarítmicas entre 72h e 96h de crescimento nas mesmas condições de
cultura. Com isso, realizou-se a extração de RNA e em seguida o sequenciamento de RNA
(RNA-seq). Durante as análises de RNA-seq, identificaram-se quatro genes, um superexpresso
e três subexpressos, entre os grupos susceptível vs. menos susceptível ao SbIII. Entre os grupos
LRV1+ vs. LRV1- foram identificados 12 genes, oito subexpressos e quatro superexpressos.
Esses genes estão relacionados aos processos metabólicos, de transdução de sinal e de
recombinação e reparação de DNA. Além disso, com o RNA-seq foi possível obter os primeiros
genomas virais completos de oito cepas de L. braziliensis da Amazônia brasileira, dos quais
duas apresentaram coinfecção por LRV1. Na análise filogenética com as sequências de LRV1
foi demonstrado que esses vírus se agrupam de acordo com as espécies de Leishmania,
reforçando a hipótese de coevolução entre Leishmania e LRV1. Diante disso, a abordagem de
RNA-seq não só permite avaliar os genes diferencialmente expressos, como possibilita a
identificação de transcritos correspondentes ao vírus, podendo ser uma alternativa de reanálise
de transcriptomas de Leishmania feitos anteriormente para identificar a presença de LRV1 e
compreender a relação simbiótica parasito-vírus. Ante o exposto, esses estudos são
fundamentais para o entendimento da biologia de Leishmania e de sua interação com o LRV1,
e podem contribuir para novas estratégias de prognóstico e tratamento da LT.