Avaliacao da resposta imunologica apos tratamento do envenenamento experimental por Bothrops jararacussu utilizando soro policlonal e nanocorpos de camelideos.
Veneno de Serpente; Bothrops; Camelídeos; IL-1β; Soro Policlonal.
Na América Latina, o ofidismo é considerado uma doença ocupacional e
negligenciada. Estudos recentes mostram que o número de acidentes com serpentes
venenosas no mundo em um ano é de, pelo menos, 420 mil, dos quais, 20 mil evoluem
à óbito. No Brasil, a maioria dos acidentes é ocasionado por serpentes do gênero
Bothrops, distribuídas em mais de 60 espécies em todo território. Grande parte dos
efeitos sistêmicos ocasionados pelo veneno de serpentes são neutralizados com a
utilização do antiveneno, entretanto os efeitos locais, como mionecrose,
dermonecrose, dor e edema não são totalmente neutralizados. Uma das classes de
proteínas que desencadeiam a grave resposta inflamatória local são as fosfolipases
A2 (PLA2s) de venenos de serpentes (SVPLA2s) responsáveis pelo efeito citotóxico e
miotóxico no tecido. O soro hiperimunizado de camelídeos possui anticorpos
desprovidos de cadeia leve denominados HcAbs (IgG2 e IgG3) com massa molecular
de cerca de 90kDa e apenas um domínio único de reconhecimento antigênico de
cadeia pesada denominado VHH ou nanocorpos. Os domínios VHH são menos
imunogênicos, mais permeáveis ao tecido e resistentes a mudanças de temperatura
e pH e com potencial biotecnológico para implementação como um insumo terapêutico
coadjuvante à soroterapia. Os HcAbs de Lama glama foram purificados do soro
hiperimunizado produzido a partir da exposição do animal ao veneno total e as PLA2s
do veneno de Bothrops jararacussu (vBj). A purificação das IgGs foi realizada
utilizando colunas de A e G Sepharose. O rendimento de IgG1, IgG2 e IgG3 foi em
torno de 4 mg/mL, 1 mg/mL e 200μg/mL, respectivamente após a purificação. As IgG2
e IgG3 reconheceram as toxinas e o veneno mesmo após a digestão enzimática com
pepsina, entretanto IgG1 parece perder a capacidade de ligação após a digestão.
Além disso, as IgGs foram capazes de reconhecer toxinas e venenos de outras
espécies do gênero Bothrops e Crotalus. Após purificação e digestão das IgGs, foi
realizado o tratamento experimental com 7μg de HcAbs utilizando camundongos da
linhagem Swiss, pesando entre 18-20 g, após a inoculação de 25 μg de vBj no
músculo gastrocnêmio. Após o tratamento, o sangue foi retirado e o plasma utilizado
para quantificar os marcadores de dano muscular (creatina cinase – CK) e
citotoxicidade (lactato desidrogenase - LDH) que diminuíram significativamente após
o tratamento em comparação ao grupo envenenado e não tratado, assim como o
marcador de dano cardíaco (CK-MB). O marcador de dano hepático agudo,
(transaminase glutâmico-oxalacética – TGO), diminuiu significativamente em relação
ao controle não tratado, e o de dano hepático crônico (transaminase glutâmicopirúvica
– TGP) não foi alterado nos grupos analisados. Para avaliar a resposta
inflamatória local foi mensurada a liberação da citocina IL-1β e a expressão proteica
do componente sensor NLPR3, do complexo inflamassoma. A IL-1β e o NLRP3 foram
altamente expressos no tecido muscular dos animais inoculados com vBj, entretanto,
foi observada uma diminuição significativa após o tratamento com HcAbs. O
tratamento com HcAbs mostra-se promissor, uma vez que foi capaz de diminuir os
danos teciduais em modelo animal de envenenamento experimental com vBj, o que
evidencia a importância de novas abordagens terapêuticas para o tratamento
coadjuvante à soroterapia no ofidismo.