Avaliação do potencial virucida de toxinas isoladas do veneno de serpente do gênero Bothrops sobre o vírus dengue (DENV)
Toxinas de serpentes. Fosfolipase A2. Antiviral. Terapêutica. Virus Dengue
A biodiversidade dispõe de moléculas bioativas, tais como peptídeos, proteínas e enzimas com potencial terapêutico que podem ser exploradas quanto a sua aplicação a doenças negligenciadas. O veneno de serpentes e suas frações têm ganhado crescente interesse devido a sua atividade virucida, demonstrado em estudos in vitro. O Virus Dengue (DENV) é o mais importante arbovírus humano, com cerca de 400 milhões de casos todo ano, e aumento significativo das formas mais graves da doença, tais como a síndrome da febre hemorrágica da dengue e o choque da dengue. Não existe nenhum medicamento específico correlacionado para tratamento deste agravo. Nesse sentido, os venenos de serpentes podem representar uma fonte de insumos potencialmente aplicáveis a atividade antiviral. Com a perspectiva de desenvolvimento de antivirais direcionado ao DENV, o presente estudo tem como objetivo avaliar os efeitos de diferentes toxinas isoladas do veneno da serpente Bothrops diporus sobre os DENV. Para o estudo, foram estabelecidas culturas de células das linhagens C6/36 e VERO, para cultivo e propagação viral, a partir do isolamento do DENV oriundo de soro de pacientes previamente caracterizados por biologia molecular. A detecção do sorotipo viral mantido em cultura foi realizada por RTqPCR utilizando oligonucleotídeos específicos, e a titulação viral realizada por citometria de fluxo, com confirmação de infecção celular por imunofluorescência indireta e a realização de cinética da infecção viral do DENV sorotipo1 (DENV1). Quanto aos resultados obtidos, nos ensaios de viabilidade em células VERO diferentes toxinas foram testadas, para padronização. A fosfolipase do veneno de Crotalus durissus terrificus, nos tempos de 1h e 24h apresentou viabilidade superior a ± 60 %, e ao ser incubada por 5 dias, a concentração de 50 µg/mL afetou 50% da viabilidade celular. Enquanto a PLA2 BthTX-II de Bothrops jararacussu incubada por 4 dias apresentou viabilidade superior a ± 50%. Quando testados o veneno e as toxinas de Bothrops diporus, que são as biomoléculas de enfoque do estudo, no ensaio de citotoxicidade celular, o veneno (50 µg/mL) apresentou CC50 e a PLA2-Asp (12,5 - 50 µg/mL) afetaram a viabilidade celular nas porcentagens de ±50 – 65%, respectivamente, enquanto a PLA2-Lys demonstrou afetar 50% das células na concentração de 50 µg/mL. Os sorotipos virais 1 e 3 foram detectados após 2º passarem em cultura viral por RT-qPCR. Dentre os sorotipos avaliados, ao realizar a cinética da replicação do DENV1 em C6/36, o vírus demonstrou um aumento gradual de partículas virais, estabilizadas a partir do 5° ao 6º dia de incubação e capazes de serem detectadas por imunofluorescência indireta. Em conclusão, após etapas de propagação foi possível identificar e detectar pelos métodos moleculares e celulares apenas o DENV-1. Enquanto na análise de citotoxicicidade que é um dos primeiros ensaios de um candidato a fármaco, realizado em células de mamíferos o CC50% apresentado pelas PLA2s variaram entre 25-50 µg/mL. Os resultados preliminares obtidos permitirão o prosseguimento do estudo, que consiste na avaliação da atividade antiviral das toxinas e veneno de serpentes. Uma vez que as PLA2s de serpentes têm demonstrado potencial antiviral, pesquisas aplicando a mesma classe de biomoléculas, contribuem para o melhor entendimento sobre seu mecanismo de ação.