Fatores ambientais e antrópicos na ocorrência de pecarídeos neotropicais: evidências temporais e espaciais em território indígena
Dicotyles tajacu; Ecologia de mamíferos; Monitoramento da fauna; Tayassu pecari; Territórios indígenas.
Queixadas (Tayassu pecari) e catetos (Dicotyles tajacu) são ungulados neotropicais de elevada importância ecológica, desempenhando papéis fundamentais na dinâmica das florestas tropicais, mas vêm sofrendo declínios populacionais em decorrência da fragmentação florestal, da perda de habitat e das pressões antrópicas, especialmente na Amazônia. Este estudo analisou de forma integrada a influência de variáveis ambientais e antrópicas sobre a ocorrência, a abundância relativa e os padrões de atividade dessas espécies na Terra Indígena Sete de Setembro (TISS), em Rondônia, com o objetivo de subsidiar estratégias de manejo e conservação em territórios indígenas. Foi realizada uma revisão sistemática da literatura, seguindo o protocolo PRISMA, para identificar os principais fatores ambientais e antrópicos associados à ocorrência de T. pecari e D. tajacu, bem como lacunas nos estudos existentes. Paralelamente, dados obtidos por armadilhas fotográficas na TISS foram analisados para estimar a abundância relativa e caracterizar os padrões de atividade diária e a sobreposição temporal entre as espécies, utilizando registros independentes e estatística circular. Variáveis ambientais e de uso e cobertura da terra derivadas de sensoriamento remoto, incluindo métricas da estrutura da vegetação e da paisagem, foram avaliadas em múltiplas escalas espaciais por meio de modelos quantitativos. Os resultados indicaram maior número de registros independentes para D. tajacu, sugerindo maior ocorrência relativa ou maior detectabilidade do cateto, enquanto T. pecari apresentou menor frequência de registros. Ambas as espécies apresentaram predominância de atividade diurna, com D. tajacu exibindo padrão tipicamente diurno e T. pecari padrão catemeral, caracterizado por maior concentração temporal da atividade. Apesar da elevada sobreposição temporal, foram observadas diferenças na organização do uso do tempo ao longo do dia. A síntese da literatura e as análises multiescalares demonstraram que a ocorrência dessas espécies é fortemente influenciada pela integridade florestal, pela disponibilidade de recursos e pela intensidade das pressões antrópicas, com respostas contrastantes entre elas, sendo T. pecari mais sensível à perda e fragmentação do habitat e D. tajacu mais tolerante a paisagens heterogêneas. A integração de informações temporais, espaciais e ambientais contribui para uma compreensão mais robusta da ecologia dessas espécies e fornece subsídios relevantes para o planejamento do manejo e da conservação em territórios indígenas da Amazônia.