Perfil metabolômico dos chás da castanheira-do-Brasil (Bertholethia excelsa) e seu potencial terapêutico contra o Plasmodium falciparum
Palavras-chave: Bioativos; Castanheira-do-Brasil; Etnobotânica; Málaria; Metabolômica.
A malária e a leishmaniose são doenças de grande impacto socioeconômico, agravado pela resistência e toxicidade dos tratamentos disponíveis, o que impulsiona a busca por novas alternativas terapêuticas. As comunidades tradicionais utilizam o chá da castanheira-do-Brasil (Bertholletia excelsa) para tratamento hepático e como agente antimalárico, constituindo um valioso ponto de partida para investigações científicas sobre seus compostos bioativos. O objetivo do estudo foi avaliar a susceptibilidade do Plasmodium falciparum e Leishmania amazonensis à ação dos metabólitos presentes nos extratos brutos de diferentes estruturas vegetais de B. excelsa. A partir dos resultados obtidos foi elaborado o artigo científico, estando estruturada de acordo com as normas institucionais vigentes para trabalhos acadêmicos nesse modelo. As amostras constituídas pela casca do caule, fruto e opérculo (estrutura que fica dentro do fruto), foram coletadas de árvores nativas da Amazônia em Porto Velho/RO. As amostras vegetais secas em estufa tiveram seus metabólitos extraídos com água em temperatura ambiente (25ºC), água a 100°C e metanol. Quando secos, os extratos brutos foram analisados por cromatografia líquida de ultra eficiência acoplada à espectrometria de massas sequencial de alta resolução (UHPLC/HRMSn) utilizando uma coluna C18 e ionização por Eletrospray nos modos positivo (ESI+) e negativo (ESI-). A identificação dos analitos foi realizada com auxílio do software MS Dial 5.1. Os resultados revelam abundância de metabólitos secundários, descritos pela primeira vez em B. excelsa, pertencente às classes dos flavonoides, cumarinas e terpenos (triterpenos, diterpenos, sesquiterpenos e monoterpenos), ampliando o conhecimento sobre a diversidade e riqueza química dessa espécie. Os metabólitos identificados, alinhados com as atividades biológicas descritas na literatura, confirmam o potencial biológico dessa espécie. Os ensaios biológicos demonstraram expressivas atividades antioxidantes frente ao radical livre DPPH, com valores mínimos de IC50 de 1,48 µg/mL para o extrato da casca do caule, 14,15 µg/mL para o extrato do fruto e 13,25 µg/mL para o extrato do opérculo. Adicionalmente, exibiram potentes atividades inibitórias frente ao P. falciparum cloroquina resistente, com inibições entre 80 e 100% na concentração de 100 µg/mL. Os valores mínimos de IC50 para essa atividade antiplasmódica foram de 2,38 µg/mL para o extrato da casca do caule, 9,41 µg/mL para o extrato do fruto e 30,36 µg/mL para o extrato do opérculo, validando cientificamente o uso tradicional da castanheira-do-Brasil. Verificou-se ainda que os extratos brutos da casca do caule e fruto apresentaram maior seletividade para o parasito do que para as linhagens celulares HePG2 e VERO, o que justifica a continuidade dos estudos. Contudo, não foram observadas atividades inibitórias mínimas relevantes contra a espécie de L. amazonensis testada. Esses resultados ressaltam a importância do conhecimento etnobotânico como guia para a bioprospecção, evidenciam o potencial e importância da biodiversidade amazônica como fonte de novos compostos bioativos e reforçam a necessidade de preservação das espécies vegetais da região.