DIVERSIDADE VIRAL EM DUAS ESPÉCIES DE PRIMATAS CALITRIQUÍDEOS DA AMAZÔNIA SUL-OCIDENTAL NO CONTEXTO DA SAÚDE ÚNICA
Leontocebus weddelli. Mico rondoni. Viroma. Espécies-sentinela. Rondônia
A perda de ecossistemas, associada às mudanças climáticas e ao grande potencial de contato entre humanos, animais domésticos e silvestres em áreas de contato com florestas tropicais, leva ao extravasamento de microrganismos que podem resultar em vírus e outras epizootias. Os primatas-não-humanos (PNHs), por serem os mais susceptíveis a doenças que acometem o ser humano devido à sua proximidade evolutiva, tornam-se modelos essenciais para estudos de doenças e podem ser considerados sentinelas para a vigilância epidemiológica de muitas doenças zoonóticas. Os PNHs - principalmente os de pequeno porte - estão inseridos em fragmentos florestais impactados pela crescente urbanização. Nesse contexto, conhecer a diversidade de famílias virais apresentadas em animais silvestres, principalmente em regiões antropizadas, nos leva a uma vigilância precoce, pois sabemos que a maioria das zoonoses tem importância epidemiológica para a saúde humana e animal, contribuindo assim para a saúde pública, preservação das espécies e o ambiente. Os objetivos deste trabalho foram levantar as famílias virais dos PNHs capturados em duas áreas antrópicas de Porto Velho/Rondônia, e relacionar a composição do viroma com variáveis indicativas de qualidade ambiental. PNHs de duas espécies da família Callitrichidae - Mico rondoni (sagui de Rondônia) e Leontocebusweddelli (Sauim) - foram capturados com armadilhas iscadas, modelo Tomahawk em dois tamanhos, suspensas em plataformas, em fragmentos florestais urbanos e periurbanos do município de Porto Velho/RO. As duas áreas são constituídas por remanescentes de Floresta Ombrófila Aberta: o perímetro urbano (Vila Tupi) tem 21ha e a periurbana (Universidade Federal de Rondônia - UNIR) tem 55ha. Foi realizada coleta não invasiva de material biológico (swab retal) de 24 PNHs para pesquisa de viroma. Os swab retais dos indivíduos foram agrupados por espécie por localização (espécie x localização), totalizando quatro agrupamentos denominados "pools", seguidos de sequenciamento massivo (HTS) e análise de bioinformática com o software Kraken para caracterizar a diversidade de famílias virais, com ênfase nas famílias de vírus importantes para a saúde dos mamíferos, incluindo o homem. Foram detectadas 30 famílias virais, das quais 13 famílias possuem vírus de importância sanitária para mamíferos. A área da UNIR apresentou a maior riqueza de famílias virais (n=25), com M. rondoni e L. weddelli apresentando as maiores riquezas virais, com 19 e 10 famílias, respectivamente. A área urbana (Tupi) tinha apenas 13 famílias, apesar de apresentar maior proximidade entre humanos, PNHs e animais domésticos. A área da UNIR está localizada a 1km do aterro a céu aberto, levando a uma discussão sobre sua relação com a composição do viroma. A macroestrutura da vegetação (altura das árvores, árvores com CAP>20cm, abertura da copa, distância do vizinho mais próximo) não diferiu significativamente entre as áreas. Os PNHs estudados apresentaram uma riqueza de viroma e podem abrigar uma variedade de famílias com vírus de importância sanitária, mostrando a necessidade de mais pesquisas sobre essas famílias virais para saber sua importância patogênica para os animais e o possível impacto na saúde pública e na conservação das espécies.