AVALIAÇÃO DOS RISCOS À SAÚDE ASSOCIADOS AO CONSUMO DE PEIXES PROVENIENTES DE IGARAPÉS URBANOS DE PORTO VELHO/RO
Parasito-hospedeiro-ambiente; Zoonoses; Saúde única e; Recurso hídrico.
O conceito de Saúde Única tem se destacado nos últimos anos, principalmente após a pandemia da COVID-19. Este conceito valoriza a prevenção e a sustentabilidade, associando saúde humana, animal e ambiental. Neste contexto, a relação parasito-hospedeiro-ambiente ressalta a importância do equilíbrio ecológico e suas implicações para a Saúde Pública. Os parasitos são organismos evolutivamente bem-sucedidos, integram ativamente as inter-relações ecológicas e desempenham papéis fundamentais nos ecossistemas. Portanto, sua importância deve ser considerada pelo poder público e gestores ambientais na implementação de métodos de restauração e conservação dos recursos hídricos. O objetivo foi avaliar os riscos associados ao consumo de peixes provenientes de igarapés urbanos da cidade de Porto Velho/RO considerando a presença de endoparasitos com potencial zoonótico. A partir da revisão sistemática pelo método PRISMA, foi possível apontar lacunas de informações sobre a ocorrência e prevalência de endoparasitos em Oreochromis niloticus, bem como estudos de ectoparasitismo, dos quais a maioria focados na temática são oriundos, predominantemente, do Sul e Nordeste do Brasil. A carência de investigações detalhadas e metodologias específicas para a identificação de endoparasitos limita a compreensão dos riscos associados a transmissão de zoonoses relacionadas ao consumo desses peixes. Para suprir essa lacuna, foram coletados quarenta espécimes de O. niloticus em quatro igarapés de perímetro urbano do Município de Porto Velho /RO. Os peixes foram necropsiados e, seus intestinos foram coletados para exames coprológicos. A musculatura somática foi avaliada com auxílio de estereomicroscópio em busca de larvas de parasitos, na qual se observou ausência de parasitos. Em contrapartida, verificou-se uma elevada incidência de ovos e larvas de enteroparasitos comuns em humanos e outros mamíferos, como Ascaris lumbricoides, Hymenolepis nana, Ancylostoma sp., Taenia sp., entre outros, constatando a contaminação do afluente por esgotamentos sanitários. A ausência de parasitos na musculatura dos peixes pode parecer positiva à primeira vista, porém, a combinação da falta de parasitos comuns na musculatura com a alta infestação de ovos nos lúmens intestinais reflete a antropização dos igarapés e a falta de saneamento adequado, gerando um risco significativo para a Saúde Pública. Este cenário de degradação ambiental e perda de biodiversidade é evidenciado pela ausência total de larvas de parasitos na carne dos peixes. Conclui-se que, um ambiente aquático antropizado pode selecionar parasitos mais resistentes à contaminação, diminuindo a biodiversidade de parasitos comensais e interferindo na qualidade de vida trófica dos animais de forma direta e indireta. Apontado como um importante bioindicador, o estudos com peixes de vida livre pode dimensionar a degradação do igarapé, evidenciando a falta de biodiversidade, o que impede ciclos biológicos de se completarem e propicia um ambiente favorável para espécies invasoras.